Peço licença – e desculpa – porque não vou publicar resenhas de livros neste final de semana. Gostaria de fazer um convite à reflexão sobre o que a gente anda lendo ultimamente. Por isso, quero gastar alguns bons minutos do seu tempo com este texto, sei que é enorme, sou bastante prolixa e custei para achar o jeito de escrever sobre o assunto, aí quando engrenei, só fui terminar algumas páginas depois...
Talvez pelas exigências da minha profissão, eu sou obrigada a viver demais a “vida real”, com suas notícias, sejam boas, más, péssimas, horríveis, incompreensíveis, surreais. Então, o hábito de ler romances pode ser visto como uma forma de escapar disso sem precisar sair do lugar (infelizmente, não sou como aquelas criaturas que relaxam, descansam, curam dor de cotovelo ou final de casamento no castelo de revista de celebridades na Europa – falta dinheiro e “fator famosidade”).
Por causa dos meus compromissos de vida real (como a profissão e a caçada ao famigerado mestrado), aproveitei a tranqüilidade de janeiro (leia-se = só trabalho) para adiantar resenhas, para assim, por mais enrolada que estiver, ter o que postar nos finais de semana. Gostei mesmo do esquema da “Post-tona”. Por isso, estou lendo vários livros e fiquei surpreendida por pegar uma seqüência com a trama parecida: apesar das diferentes autoras, coleções, séries, não faltaram homens dominadores, incapazes de ouvir o outro lado, rápidos para acusar e lerdíssimos para pedir perdão e conquistar – de forma positiva – da dama.
De repente, eu comecei a questionar onde estavam os livros que promoviam o romance de forma natural – não quero aquela overdose irreal de água com açúcar. Queria ler duas pessoas normais, com problemas e sentimentos confusos, dúvidas, lidando com seus relacionamentos. Só que a maior parte do que andei lendo mostrava heroínas acusadas de algum mau comportamento (na visão do herói) que não hesita em maltratá-la verbalmente, de algumas vezes até de forma dura e grosseira, e até mesmo há casos de uso da força física. A sedução – que deveria ser um passo natural em um relacionamento saudável – se torna uma punição, uma imposição do mais forte sobre o mais fraco, que não traz prazer, traz culpa. Pra completar esse quadro, as heroínas até tentam reagir (algumas nem isso), são pisadas, humilhadas até publicamente e por terceiros com a conivência do famigerado herói. E depois ficam felizes e se sentem abençoadas com um perdão meia-pataca (quando ele acontece). Por favor, me expliquem: como que eu vou conseguir relaxar das imposições da vida real lendo um trem desses?
Alguns teóricos vão alegar que estes livros servem como forma de massificação de um comportamento. Em plena era das mulheres independentes com dupla e até tripla jornada, as personagens não têm carreiras, e quando tem, as jogam pro alto porque acharam os milionários dos seus sonhos que, após pisá-las mais que tapetinho de entrada em dia de chuva, vão sustentá-las, enquanto elas se dedicam a providenciar uma ni-nhada de herdeiros, trabalhar pela caridade ou entrar na “high society”. Sério, isso é vida real? Claro que também não quero ler uma “ode ao miserê” (como disse, tenho contato demais com a vida real na minha rotina), mas daí a tropeçar em um príncipe (eu já disse: na vida real, a princesa mais amada do mundo – Diana – perdeu o príncipe sapo pra baranga da nobreza inglesa, * sorry, não dá pra chamar aquela mulher de patinho feio * e um raio não cai no mesmo lugar, né, afinal de contas Letizia deixou de ser jornalista por amor e se tornou princesa da Espanha, as chances de happy end das demais praticamente são nulas), armador grego (porque todos são donos de empresa de navegação na Grécia) ou em um banqueiro italiano ou inglês (só tem banco nestes países) e em nobres espanhóis, ingleses, italianos... (fora o auge da falta de sorte: para achar um brasileiro legal, devemos ir pra Londres ou pra Indonésia – lugares que não são bem ali na esquina!) E agora o nível de vida encareceu até nas nossas histórias. Lembro de um comen-tário no Orkut de que, em plena época de crise e pós-crise mundial, com milhares de pessoas perdendo emprego, casas e todo o planejamento de uma vida, as autoras promoveram os heróis de ricos e milionários para bilionários – nota de corte mínima para ser protagonista. Haja zerinho, até no mundo daquelas cerca de 200 páginas. É ficção, sim, mas é irreal demais, até para a ficção.
E, ainda bem, para não parecer que sou a componente do “bloco do eu sozinha” sobre “o que está se pas-sando na cabeça deste povo que escreve, edita e publica as histórias”, para citar outros pontos, vou citar os argumentos da Dayane, que ela escreveu no comentário do post *** Palavra da Mulherzinha: Coisinhas do LdM.
Heroínas ou Sofrerinas?
Primeiro de tudo Beta, quero te dar os parabéns pelo seu blog, pouca gente escreve como você, com tanta astúcia, mas ao mesmo tempo leveza e descontração. PER FEI TO!
E sabe para quem falta uma certa mão de leveza? Para nossas queridas autoras, ora bolas! Gente, preciso confessar que existe um lado Amélia em mim que me faz derreter com os livros da Michelle Reid, Lynne Graham e companhia, porque fala sério, os heróis embora “precipitado-poulos” (adoro este termo kkk) são também fortes, decididos, inteligentes e ricos de dar dó ao Bill Gates, então, damos um desconto porque ninguém é perfeito. Mas... as heroínas destas tur-ma acima citada, são... perfeitas demais, no sentido chato da palavra!
Perdoam coisas imperdoáveis, poços de virtude, sempre modestas, falam baixo, tem poucas amizades masculinas e são praticamente assexuadas antes de conhecer seus amores da vida toda? Gente, tem dó!! Ok, ok não estou levantando uma bandeira a promiscuidade, acho que tem até um certo charme a virgindade das mocinhas, mas vamos falar em termos humanos, alguma coisa elas deveriam saber né?
Vamos conhecer minhas indignações:
a) Se o grande Precitadopoulos vivesse atrás de um rabo de saia modelo/atriz e aparecendo em todos os jornais? Daí ele morre de ciúmes de um amigo seu? Na real, mulheres reais iam aproveitar a chance para fazer ciúmes, dos grandes, eu sei que eu ia há-há. Mas as sofrerinas fazem isso? Nãoooooo, elas explicam o mal entendido e depois ficam humilhadas porque o dono da verdade não acredita.
b) Gente, pelo menos há 20 anos que ser virgem não é sinônimo de ser tapada, não é porque você nunca esteve entre os lençóis que precisa agir de maneira indefesa quando resolve se entregar. Mulheres ativas se divertem mais! Garota, se apaixonou? Carpe Diem!
c) Outra coisa que me deixa louca, elas nunca tem carreiras, ou estudam, ou tem ambições. Se-rá que no fundo sabem que vão se casar com um multimilionário?
d) Todas são tímidas, reservadas (não é crime), mas estas heroínas levam isso ao cúmulo de serem reclusas affff, puxa vida, queria ver heroínas mais descoladas, abertas para o mundo, para amizades.
Quem leu o comentário na íntegra percebeu que a Dayane propôs uma campanha, mas vou lançá-la em outro post, para não desviar do assunto. É certo que os livros sempre acompanharam um padrão de comportamento vigente: uma trama escrita do século XIX é bem diferente dos livros da década de 70 e do início dos anos 80, que são totalmente diferentes dos de hoje. Apesar de resgatarem em todos eles, um padrão de comportamento ideal que a mulher deveria seguir para encontrar seu príncipe encantado. A heroína virginal deve esperar para consumar o amor supremo com o marido. Depois a heroína pode até perder a virgindade antes do “sim” no altar, desde que seja com o amor da vida dela. Agora são até admitidos outros relacionamentos oficiais, mas o amor perfeito ainda está por vir ou foi perdido em um passado que volta para ser resgatado. Mulher que tem muitos namorados (mesmo que nas tramas elas não passem dos beijos e abraços) é mal vista. E olha que, em muitas tramas, se ela olhar pro lado e tiver o azar de passar um homem – pode ser até o Quasímodo – ou mesmo Pluft, o fantasminha, o herói já a ofende para que ela se sinta algo abaixo de zero.
Sim, somos criadas para ter a visão de que “homem pode tudo” e “mulher tem que ser uma dama, com-portada e virtuosa”, em plena era da banalização das periguetes, do povo que requebra até o chão. Ô gente, estamos a uma semana do Carnaval e, ao invés de divulgar enredos, as manchetes preferenciais são sobre as intrigas para que esta ou aquela beldade assumisse o posto de rainha da bateria da Unidos do Skindolelê ou a dieta que a mesma beldade fez para estar em forma de deusa grega malhada para a passarela, a promessa de uma fantasia (ou falta de uma) que irá surpreender a Passarela do Samba ou quantas cirurgias a outra beldade fez porque se recusa a compreender que o tempo passa para todas e todos. Só que estas mulheres estão distantes, são “atrizes, ajudantes de palco, manequins, namoradas de pagodeiros, de jogadores de futebol ou ficantes de cantores internacionais que visitam o país” – vai você, garota humilde, tentar fazer algo parecido, guardadas as devidas proporções, para sair na singela Acadêmicos do Tamborim do Couro de Gato pra ver a comoção que causará entre os fofoqueiros do bairro. Alguns até terão coragem de dizer na sua cara, a maioria vai preferir falar pelas costas o que sa-be, o que pensa que sabe – e o favorito de todo fofoqueiro profissional – o que não sabe, mas fala mesmo assim. E cá entre nós, será que as musas do Carnaval (só pra aproveitar a deixa da folia próxima) não se cansam deste rótulo eterno? Minha mãe sempre reclama da famosa revista de celebridades que antes de falar a notícia (!!!) principal a respeito da pessoa assunto da matéria (!!!) cita todos – ou o mais recente – escândalo envolvendo a criatura, quando não perde linhas e mais linhas discorrendo sobre a ficha corrida dos ex-relacionamentos (em alguns casos, coloca ex-namorados em páginas uma ao lado da outra).
Será que isso reforça a nossa visão para achar “aceitáveis” coisas na vida real como os homens que matam as ex-companheiras porque não suportam ser abandonados (o pior é quando a imprensa divulga um caso buscando chocar as pessoas, uma cambada de bocós inseguros acha que é sinal verde para fazer igualzinho – bom exemplo ninguém segue) e não hesitam em trocar a companheira de uma vida por uma tantos anos mais jovem em busca da mágica de congelar o tempo para eles e manter a aparên-cia de uma virilidade que às vezes só existe movida pelo milagre da farmácia e bioquímica. E quando a gente vê uma mulher com um homem mais novo, o primeiro pensamento é: “sustenta para ter sexo” (sim, isso acontece em alguns casos, mas será que é a regra?). Neste mundo onde tudo é motivo para aparecer, o romantismo está sendo morto a tiros diariamente. Dar flores é brega, ser educado está fora de moda e a fidelidade é um conceito tão arcaico como a pobre da ética profissional e pessoal.
Será que será tudo que o que esperam de nós, a turma feminina da virada do século, é sermos “amélias” virtuosas, eternamente compreensivas e satisfeitas da tripla jornada e de terem um amo e senhor e estar sujeitas a tudo para mantê-los do nosso lado para todo o sempre, amém?. E escapar da sina de agüen-tar resignadamente o julgamento de “por que está solteira”, “por que não se casou”, “uai, nesta idade e ainda não tem filhos” – o tal padrão ao qual Bridget Jones não soube responder na cena do jantar (pra quem viu o primeiro filme). Desculpem a postura escorpiana mal humorada, mas eu não sou santa (consultem a lista dos bem-aventurados, não há nenhuma Roberta e está bem difícil que eu seja a pioneira) e muito menos uma alma perdida. E nem caio na tentação da banalidade. Como várias outras pessoas, lido com meus defeitos, qualidades, fobias (êta lista que só aumenta), imperfeições que fazem a diferença e apenas procuro alguém que me respeite e em quem eu possa confiar para construir um relaciona-mento onde todo dia teremos capítulos de romance, aventura, suspense, cenas quentes, cenas de briga, argumentações e discussões, escolhas, um lado ceder aqui, outro abrir mão ali para voltarmos ao romance – na minha idéia idiota (apoiada por um lado escorpiano ranzinza e teimoso e outro geminiano que agora concorda, mas daqui a cinco segundos talvez queira contestar mais coisas ainda), é disso que o happy end é feito. E quando batizei este blog de Literatura de Mulherzinha, há quase 5 anos, foi a tradução do termo "Chick-Lit", usado de forma pejorativa para rotular estes livros, mas também para demonstrar que a Mulherzinha que aqui escreve, não merece o uso do diminutivo como deboche nem é tão fofa e meiga e delicada. Digamos que eu devolvi o deboche com bom humor (ou muito mau humor dependendo do livro em análise... kkk)
Não quero vida real nos livros, quero ficção. Quero romance, conquista, pessoas “gente-como-a-gente”, sem dominador e dominado, quero parceria e companheirismo, um tanto de humor e menos drama, construídos ao longo de um tempo (passe de mágica não acontece nem nos cinco minutos iniciais dos filmes da Disney) – atualmente para cada um desses que eu acho, tenho que me estressar com outras dez ou quinze... Acho que esta balança poderia ser um pouco mais equilibrada – a vida está pesada demais: a vida está banalizada, muitos se julgam no direito de brincar de Deus e a sensação que tenho é de que esta geração não vive, apenas desperdiça o tempo sem perceber o quanto fará falta depois.
Bem era isso. Ah, ainda estou devendo o comentário sobre o artigo de Jennifer Crusie, que a Cláudia Daemon enviou para a comu Adoro Romances – Yahoo. Confesso que ainda não tive tempo de quebrar a cabeça com a tradução (e meu conhecimento de espanhol é pra lá de precário). Se eu já tiver tocado em algum tema dele aqui, foi apenas coincidência – mas eu estava me devendo escrever sobre isso, que vem me incomodando nos últimos meses. E lembrem-se: é meu ponto de vista. Este post é para abrir o debate, não só entre as leitoras, mas também entre as amigas blogueiras. Fica o convite.
Bacci!!!
Beta
Talvez pelas exigências da minha profissão, eu sou obrigada a viver demais a “vida real”, com suas notícias, sejam boas, más, péssimas, horríveis, incompreensíveis, surreais. Então, o hábito de ler romances pode ser visto como uma forma de escapar disso sem precisar sair do lugar (infelizmente, não sou como aquelas criaturas que relaxam, descansam, curam dor de cotovelo ou final de casamento no castelo de revista de celebridades na Europa – falta dinheiro e “fator famosidade”).
Por causa dos meus compromissos de vida real (como a profissão e a caçada ao famigerado mestrado), aproveitei a tranqüilidade de janeiro (leia-se = só trabalho) para adiantar resenhas, para assim, por mais enrolada que estiver, ter o que postar nos finais de semana. Gostei mesmo do esquema da “Post-tona”. Por isso, estou lendo vários livros e fiquei surpreendida por pegar uma seqüência com a trama parecida: apesar das diferentes autoras, coleções, séries, não faltaram homens dominadores, incapazes de ouvir o outro lado, rápidos para acusar e lerdíssimos para pedir perdão e conquistar – de forma positiva – da dama.
De repente, eu comecei a questionar onde estavam os livros que promoviam o romance de forma natural – não quero aquela overdose irreal de água com açúcar. Queria ler duas pessoas normais, com problemas e sentimentos confusos, dúvidas, lidando com seus relacionamentos. Só que a maior parte do que andei lendo mostrava heroínas acusadas de algum mau comportamento (na visão do herói) que não hesita em maltratá-la verbalmente, de algumas vezes até de forma dura e grosseira, e até mesmo há casos de uso da força física. A sedução – que deveria ser um passo natural em um relacionamento saudável – se torna uma punição, uma imposição do mais forte sobre o mais fraco, que não traz prazer, traz culpa. Pra completar esse quadro, as heroínas até tentam reagir (algumas nem isso), são pisadas, humilhadas até publicamente e por terceiros com a conivência do famigerado herói. E depois ficam felizes e se sentem abençoadas com um perdão meia-pataca (quando ele acontece). Por favor, me expliquem: como que eu vou conseguir relaxar das imposições da vida real lendo um trem desses?
Alguns teóricos vão alegar que estes livros servem como forma de massificação de um comportamento. Em plena era das mulheres independentes com dupla e até tripla jornada, as personagens não têm carreiras, e quando tem, as jogam pro alto porque acharam os milionários dos seus sonhos que, após pisá-las mais que tapetinho de entrada em dia de chuva, vão sustentá-las, enquanto elas se dedicam a providenciar uma ni-nhada de herdeiros, trabalhar pela caridade ou entrar na “high society”. Sério, isso é vida real? Claro que também não quero ler uma “ode ao miserê” (como disse, tenho contato demais com a vida real na minha rotina), mas daí a tropeçar em um príncipe (eu já disse: na vida real, a princesa mais amada do mundo – Diana – perdeu o príncipe sapo pra baranga da nobreza inglesa, * sorry, não dá pra chamar aquela mulher de patinho feio * e um raio não cai no mesmo lugar, né, afinal de contas Letizia deixou de ser jornalista por amor e se tornou princesa da Espanha, as chances de happy end das demais praticamente são nulas), armador grego (porque todos são donos de empresa de navegação na Grécia) ou em um banqueiro italiano ou inglês (só tem banco nestes países) e em nobres espanhóis, ingleses, italianos... (fora o auge da falta de sorte: para achar um brasileiro legal, devemos ir pra Londres ou pra Indonésia – lugares que não são bem ali na esquina!) E agora o nível de vida encareceu até nas nossas histórias. Lembro de um comen-tário no Orkut de que, em plena época de crise e pós-crise mundial, com milhares de pessoas perdendo emprego, casas e todo o planejamento de uma vida, as autoras promoveram os heróis de ricos e milionários para bilionários – nota de corte mínima para ser protagonista. Haja zerinho, até no mundo daquelas cerca de 200 páginas. É ficção, sim, mas é irreal demais, até para a ficção.
E, ainda bem, para não parecer que sou a componente do “bloco do eu sozinha” sobre “o que está se pas-sando na cabeça deste povo que escreve, edita e publica as histórias”, para citar outros pontos, vou citar os argumentos da Dayane, que ela escreveu no comentário do post *** Palavra da Mulherzinha: Coisinhas do LdM.
Heroínas ou Sofrerinas?
Primeiro de tudo Beta, quero te dar os parabéns pelo seu blog, pouca gente escreve como você, com tanta astúcia, mas ao mesmo tempo leveza e descontração. PER FEI TO!
E sabe para quem falta uma certa mão de leveza? Para nossas queridas autoras, ora bolas! Gente, preciso confessar que existe um lado Amélia em mim que me faz derreter com os livros da Michelle Reid, Lynne Graham e companhia, porque fala sério, os heróis embora “precipitado-poulos” (adoro este termo kkk) são também fortes, decididos, inteligentes e ricos de dar dó ao Bill Gates, então, damos um desconto porque ninguém é perfeito. Mas... as heroínas destas tur-ma acima citada, são... perfeitas demais, no sentido chato da palavra!
Perdoam coisas imperdoáveis, poços de virtude, sempre modestas, falam baixo, tem poucas amizades masculinas e são praticamente assexuadas antes de conhecer seus amores da vida toda? Gente, tem dó!! Ok, ok não estou levantando uma bandeira a promiscuidade, acho que tem até um certo charme a virgindade das mocinhas, mas vamos falar em termos humanos, alguma coisa elas deveriam saber né?
Vamos conhecer minhas indignações:
a) Se o grande Precitadopoulos vivesse atrás de um rabo de saia modelo/atriz e aparecendo em todos os jornais? Daí ele morre de ciúmes de um amigo seu? Na real, mulheres reais iam aproveitar a chance para fazer ciúmes, dos grandes, eu sei que eu ia há-há. Mas as sofrerinas fazem isso? Nãoooooo, elas explicam o mal entendido e depois ficam humilhadas porque o dono da verdade não acredita.
b) Gente, pelo menos há 20 anos que ser virgem não é sinônimo de ser tapada, não é porque você nunca esteve entre os lençóis que precisa agir de maneira indefesa quando resolve se entregar. Mulheres ativas se divertem mais! Garota, se apaixonou? Carpe Diem!
c) Outra coisa que me deixa louca, elas nunca tem carreiras, ou estudam, ou tem ambições. Se-rá que no fundo sabem que vão se casar com um multimilionário?
d) Todas são tímidas, reservadas (não é crime), mas estas heroínas levam isso ao cúmulo de serem reclusas affff, puxa vida, queria ver heroínas mais descoladas, abertas para o mundo, para amizades.
Quem leu o comentário na íntegra percebeu que a Dayane propôs uma campanha, mas vou lançá-la em outro post, para não desviar do assunto. É certo que os livros sempre acompanharam um padrão de comportamento vigente: uma trama escrita do século XIX é bem diferente dos livros da década de 70 e do início dos anos 80, que são totalmente diferentes dos de hoje. Apesar de resgatarem em todos eles, um padrão de comportamento ideal que a mulher deveria seguir para encontrar seu príncipe encantado. A heroína virginal deve esperar para consumar o amor supremo com o marido. Depois a heroína pode até perder a virgindade antes do “sim” no altar, desde que seja com o amor da vida dela. Agora são até admitidos outros relacionamentos oficiais, mas o amor perfeito ainda está por vir ou foi perdido em um passado que volta para ser resgatado. Mulher que tem muitos namorados (mesmo que nas tramas elas não passem dos beijos e abraços) é mal vista. E olha que, em muitas tramas, se ela olhar pro lado e tiver o azar de passar um homem – pode ser até o Quasímodo – ou mesmo Pluft, o fantasminha, o herói já a ofende para que ela se sinta algo abaixo de zero.
Sim, somos criadas para ter a visão de que “homem pode tudo” e “mulher tem que ser uma dama, com-portada e virtuosa”, em plena era da banalização das periguetes, do povo que requebra até o chão. Ô gente, estamos a uma semana do Carnaval e, ao invés de divulgar enredos, as manchetes preferenciais são sobre as intrigas para que esta ou aquela beldade assumisse o posto de rainha da bateria da Unidos do Skindolelê ou a dieta que a mesma beldade fez para estar em forma de deusa grega malhada para a passarela, a promessa de uma fantasia (ou falta de uma) que irá surpreender a Passarela do Samba ou quantas cirurgias a outra beldade fez porque se recusa a compreender que o tempo passa para todas e todos. Só que estas mulheres estão distantes, são “atrizes, ajudantes de palco, manequins, namoradas de pagodeiros, de jogadores de futebol ou ficantes de cantores internacionais que visitam o país” – vai você, garota humilde, tentar fazer algo parecido, guardadas as devidas proporções, para sair na singela Acadêmicos do Tamborim do Couro de Gato pra ver a comoção que causará entre os fofoqueiros do bairro. Alguns até terão coragem de dizer na sua cara, a maioria vai preferir falar pelas costas o que sa-be, o que pensa que sabe – e o favorito de todo fofoqueiro profissional – o que não sabe, mas fala mesmo assim. E cá entre nós, será que as musas do Carnaval (só pra aproveitar a deixa da folia próxima) não se cansam deste rótulo eterno? Minha mãe sempre reclama da famosa revista de celebridades que antes de falar a notícia (!!!) principal a respeito da pessoa assunto da matéria (!!!) cita todos – ou o mais recente – escândalo envolvendo a criatura, quando não perde linhas e mais linhas discorrendo sobre a ficha corrida dos ex-relacionamentos (em alguns casos, coloca ex-namorados em páginas uma ao lado da outra).
Será que isso reforça a nossa visão para achar “aceitáveis” coisas na vida real como os homens que matam as ex-companheiras porque não suportam ser abandonados (o pior é quando a imprensa divulga um caso buscando chocar as pessoas, uma cambada de bocós inseguros acha que é sinal verde para fazer igualzinho – bom exemplo ninguém segue) e não hesitam em trocar a companheira de uma vida por uma tantos anos mais jovem em busca da mágica de congelar o tempo para eles e manter a aparên-cia de uma virilidade que às vezes só existe movida pelo milagre da farmácia e bioquímica. E quando a gente vê uma mulher com um homem mais novo, o primeiro pensamento é: “sustenta para ter sexo” (sim, isso acontece em alguns casos, mas será que é a regra?). Neste mundo onde tudo é motivo para aparecer, o romantismo está sendo morto a tiros diariamente. Dar flores é brega, ser educado está fora de moda e a fidelidade é um conceito tão arcaico como a pobre da ética profissional e pessoal.
Será que será tudo que o que esperam de nós, a turma feminina da virada do século, é sermos “amélias” virtuosas, eternamente compreensivas e satisfeitas da tripla jornada e de terem um amo e senhor e estar sujeitas a tudo para mantê-los do nosso lado para todo o sempre, amém?. E escapar da sina de agüen-tar resignadamente o julgamento de “por que está solteira”, “por que não se casou”, “uai, nesta idade e ainda não tem filhos” – o tal padrão ao qual Bridget Jones não soube responder na cena do jantar (pra quem viu o primeiro filme). Desculpem a postura escorpiana mal humorada, mas eu não sou santa (consultem a lista dos bem-aventurados, não há nenhuma Roberta e está bem difícil que eu seja a pioneira) e muito menos uma alma perdida. E nem caio na tentação da banalidade. Como várias outras pessoas, lido com meus defeitos, qualidades, fobias (êta lista que só aumenta), imperfeições que fazem a diferença e apenas procuro alguém que me respeite e em quem eu possa confiar para construir um relaciona-mento onde todo dia teremos capítulos de romance, aventura, suspense, cenas quentes, cenas de briga, argumentações e discussões, escolhas, um lado ceder aqui, outro abrir mão ali para voltarmos ao romance – na minha idéia idiota (apoiada por um lado escorpiano ranzinza e teimoso e outro geminiano que agora concorda, mas daqui a cinco segundos talvez queira contestar mais coisas ainda), é disso que o happy end é feito. E quando batizei este blog de Literatura de Mulherzinha, há quase 5 anos, foi a tradução do termo "Chick-Lit", usado de forma pejorativa para rotular estes livros, mas também para demonstrar que a Mulherzinha que aqui escreve, não merece o uso do diminutivo como deboche nem é tão fofa e meiga e delicada. Digamos que eu devolvi o deboche com bom humor (ou muito mau humor dependendo do livro em análise... kkk)
Não quero vida real nos livros, quero ficção. Quero romance, conquista, pessoas “gente-como-a-gente”, sem dominador e dominado, quero parceria e companheirismo, um tanto de humor e menos drama, construídos ao longo de um tempo (passe de mágica não acontece nem nos cinco minutos iniciais dos filmes da Disney) – atualmente para cada um desses que eu acho, tenho que me estressar com outras dez ou quinze... Acho que esta balança poderia ser um pouco mais equilibrada – a vida está pesada demais: a vida está banalizada, muitos se julgam no direito de brincar de Deus e a sensação que tenho é de que esta geração não vive, apenas desperdiça o tempo sem perceber o quanto fará falta depois.
Bem era isso. Ah, ainda estou devendo o comentário sobre o artigo de Jennifer Crusie, que a Cláudia Daemon enviou para a comu Adoro Romances – Yahoo. Confesso que ainda não tive tempo de quebrar a cabeça com a tradução (e meu conhecimento de espanhol é pra lá de precário). Se eu já tiver tocado em algum tema dele aqui, foi apenas coincidência – mas eu estava me devendo escrever sobre isso, que vem me incomodando nos últimos meses. E lembrem-se: é meu ponto de vista. Este post é para abrir o debate, não só entre as leitoras, mas também entre as amigas blogueiras. Fica o convite.
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